12/05/2026As histórias como bálsamos medicinaisA Dra. Clarissa descreve que
sempre que um conto é narrado, a noite vem. “Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes.” (p. 515) Você já sentiu isso? Essa
sensação de que uma história te levou pra algum lugar... e quando acabou,
alguma coisa em você tinha mudado? Eu sinto um ar diferente, um
arrepio toda vez que abro esse livro. Seja para trabalhar, estudar ou só para de
deleitar com as histórias contidas nele. Hoje eu quero te apresentar a ferramenta
ou melhor dizendo, o “remédio” utilizado pela Dra Clarissa nos seus
atendimentos e principalmente em sua obra: “Mulheres que correm com os lobos”. Afinal
de contas, as histórias nos movimentam e nos curam, se a gente tiver espaço
para esse crescimento interno, claro. A nossa cultura nos ensinou a
ver contos de fadas como coisa de criança, como passatempo, fantasia ou
“história bonitinha pra dormir.” Uma vez escutei de uma senhora
contadora de histórias:
A questão aqui é: com que
ouvidos escutamos as histórias? Como crianças fantasiosas que se perdem nos
bosques floridos ou nas lutas incansáveis? Crianças amedrontadas com medo dos
monstros que surgem no caminho ou como as impacientes pra que esse “bla bla
bla” acabe logo? A Dra. Clarissa diz que esta rotulação
de “coisa pra criança” é um dos maiores equívocos da modernidade. "As histórias são bálsamos medicinais. A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias." Dra. Clarissa Pinkola Estés (p.29) Ela diz “bálsamo”. Não diz inspiração, motivação, mas bálsamo, uma medicina. E ela vai além: “Nas histórias estão incrustadas instruções que nos orientam a respeito das complexidades da vida.” (p. 29) Instruções que o nosso
inconsciente entende, mesmo quando a nossa mente consciente não consegue
articular o problema, ou seja, a história chega onde as palavras não chegam.
Ela fala diretamente com a parte mais antiga que há em cada um de nós. E isso é o que mais me encanta: “As histórias não exigem que você faça nada. Que seja nada. Que aja de nenhum modo.” (p. 29) Basta prestar atenção. A história trabalha por baixo.
Ela suscita interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões que fazem
aflorar o arquétipo. No caso do livro Mulheres que correm com os lobos, o
arquétipo da Mulher Selvagem. Histórias e imagens A Dra. Clarissa vem de uma
linhagem viva de contadoras de histórias tanto da sua família de origem latina
quanto da sua família adotiva, húngara. Aliás, tenho um episódio no Youtube com uma breve apresentação sobre a Dra. Clarissa, é só clicar aqui, caso você queira conhecer. Para essas mulheres ancestrais
da vida dela, “uma história era um medicamento que fortalecia o indivíduo e a
comunidade.” Ou seja, atua e desenvolve o inconsciente individual e coletivo. E por falar em inconsciente, tem
uma imagem no livro que me marcou muito, um sonho que a Dra. Clarissa teve e relata
assim: "Sonhei que estava contando histórias e sentia alguém dando tapinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha. Ela segurava meus tornozelos e sorria. 'Não, não', disse-lhe eu. 'Venha subir nos meus ombros, já que a senhora é velha e eu sou nova.' 'Nada disso', insistiu ela. 'É assim que deve ser.'" Dra. Clarissa Pinkola Estés, pág.
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Ela estava em pé nos ombros de
uma mulher ainda mais velha. Que estava nos ombros de outra, e de outra. Uma
coluna inteira de seres humanos interligados através do tempo. Quando você ouve um conto no Projeto Alcateia ou em qualquer outro espaço, você não está só ouvindo uma história, você está recebendo algo que passou de boca a boca, foi registrada de alma em alma por séculos. Algo que sobreviveu porque colocou algo interno em movimento. E que chegou até você porque a sua psique talvez busque e precise do conteúdo (do bálsamo) contido no referido conto. Uma história sobre as
histórias Mas tem uma coisa que vale saber sobre a história dos contos. Ao longo dos séculos, muitas das histórias foram alteradas, símbolos antigos foram “cobertos” com camadas mais "adequadas" para a época. Uma velha curandeira virava
bruxa perversa. Um espírito tornava-se um anjo ou dependendo do que ele
propunha, um demônio. Elementos do feminino, do
sagrado, da sexualidade, da morte como transformação, tudo isso foi sendo
apagado ou suavizado para que fossem melhor aceitos. O que sobrou e chegou até nós foi apenas "historinha pra criança". Princesas e heróis que vivem ‘felizes para sempre’. Não é isso que você vai encontrar no Projeto Alcateia! Não é isso que você vai encontrar em outros conteúdos que publico e muito menos nos meus atendimentos. Não à toa eu nomeio carinhosamente minhas mentorandas e clientes como “almas corajosas”. A Dra. Clarissa passou décadas reconstituindo esses esqueletos. Coletando versões, comparando estruturas, restaurando o que foi perdido. E o que ela encontrou por baixo de todas essas camadas é exatamente o que a psique feminina precisa: coragem e movimento! A partir do próximo artigo, a gente começa a entrar nas histórias deste livro fundamental para o desenvolvimento da psique feminina. Vamos mergulhar nessas histórias que carregam instruções preciosas, mas que se diferem de maneira brutal de qualquer manual raso de autoajuda. Começaremos pelo conto “La Loba”, a história de uma mulher que
recolhe ossos no deserto, canta e traz de volta a vida de algumas criaturas. Enquanto isso, deixo um outro convite: se você quiser
participar dos encontros do Projeto Alcateia, entre no grupo fechado de whatsapp, onde divulgo as datas e informações desses eventos. E aí, você topa continuar comigo
nesta jornada, alma corajosa? Com carinho,
Fabi Cauneto REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 📚 ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos, Editora Rocco ▶️🎙️Este conteúdo também está disponível como ‘videocast’ no Youtube e Spotify. |
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